terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Literatura & Sociedade









KEUNEN, Bart & EECKHOUT, Bart. (ed.). Literature and Society. The function of Literary Sociology in Comparative Literature. Bruxelles; Bern; Berlin; Frankfurt/M.; New York; Oxford; Wien: Lang, 2001.


Introduction: The Rise and Fall of Literary Sociology... and Its Survival
Bart Keunen

Somente a partir dos anos 60 a academia reconheceu o tema “literatura e sociedade” como uma nova disciplina crítico-literária. Através de alguns precursores como Lukács e Adorno, outros teóricos inspirados pelo marxismo começaram a observar as nuances da complexa interelação dos textos literários com o seu contexto social. Foi somente no último terço do século XX que o campo começou a clamar por autonomia, assumindo nomes como: Sociologia da Literatura, Poética Sociológica ou Sociologia Literária. Talvez a melhor prova do desenvolvimento dessa subdisciplina da teoria literária foi o fato de no sexto congresso da International Caomparative Literature Association (1970) ter excepcionalmente aberto um amplo espaço para o tema da Littérature et Société. Conforme Robert Escarpit, organizador da conferência, o sucesso foi enorme, tanto que muitos submeteram abstracts que foram devolvidos. Ele chegou a conclusão de que o sucesso se deu em função de uma preocupação profunda dos comparatistas do mundo interiro com essa temática.
Nos anos 60 e 70, acadêmicos como Erich Köhler, Peter Bürger, Lucien Goldmann, Peter Zima e Terry Eagleton, mencionando apenas alguns, se convenceram que a crítica comparativista poderia ser organizada de acordo com o modelo sociológico. Um olhar nas livrarias acadêmicas daquele tempo nos ensinam que os estudantes estavam preocupados com as hipóteses sobre as relações ente literatura e ideologia, as condições sociais de expressão literária, as origens sociais dos gêneros literários, o social ligado aos temas e a base sociológica da evolução literária. Em suma, os estudiosos concentraram-se nos “macro” problemas de uma natureza teórico-cultural (influência das ideias marxistas). A tendência em considerar a sociologia literária como “disciplina guia” na literatura comparada persistiu até o começo dos anos 80. Desde aquele tempo, vários autores têm diagnosticado que a crítica literária está sofrendo de uma fadiga da sociologia. Segundo Peter Zima, nossa disciplina abandonou sua reivindicação teórica ao passar dos anos, enquanto que nos anos iniciais ela ainda tentava estabelecer conexões com o social e com as ciências naturais.
O apagamento do interesse não está desrelacionado com a evolução dentro de uma teoria cultural. Utilizando a crítica marxista, a sociologia literária pode descrever um fenômeno literário da perspectiva histórica da burguesia moderna. Teóricos como Lukács, Goldmann ou Adorno situaram a literatura contra a experiência do processo de modernização e seus portadores: os burgueses. O problema da modernidade tem se tornado cada vez mais complexo como os muitos debates sobre o pós-modernismo e pós-modernidade ilustram. O problema encontrado pela sociologia literária – e também por uma variedade de outras disciplinas afins – dá a impressão de que a modernidade tem se prendido em si mesma. A “Sociedade Burguesa” pode não estar muito distante para ser percebida como um conceito monolítico, que é uma das razões por que a sociologia literária marxista resistiu as crises. A inabilidade para estabelecer um discurso marxista adequado é indubitavelmente relacionado com a crise do conceito de “classes”, como Laclau e Chantal Mouffe tão convincentemente argumentam em Hegemony and Socialist Strategy..
Conceitos como “modernidade” e “sociedade burguesa” estão muitas vezes relacionados com a rudeza com a qual a sociologia tem sido aplicada em sociologia literária e no espaço teórico. Como Steven Best e Douglas Kellner explanam, o velho pensamento de esquerda “reduz a complexidade da realidade social ao debate sobre a produção e à luta classes, definindo uma multiplicidade de ‘posições subjetivas’ (classe, raça, sexo, nacionalidade) como posições de classe”. São precisamente essas posições subjetivas que têm funcionado como o ponto de partida da teoria cultural até recentemente (década de 80). A importância cultural na sua evolução teórica é o fato sociológico que os cidadãos urbanizados hoje, como o sociólogo alemão Ulrich Beck tem observado, vivem em uma sociedade individualizada. Eles se identificam cada vez menos com as instituições coletivizadoras hierárquicas e disciplinadoras do passado (religião, autoridade moral, partidos políticos, classes sócio-econômicas) e cada vez mais com os grupos que se autoregulam e estabelecem suas regras, freqüentemente relacionadas com a noção de subcultura.
Partindo das novas condições da subjetividade formuladas por Beck, alguém poderia facilmente argumentar que nenhuma distinção de classe tradicional (“a burguesia”) é capaz de funcionar como base ou descrição adequada das efetivas mudanças que afetam a sociedade moderna. Em outras palavras, nós estamos negociando como novos problemas que necessitam de novas estratégias sociológico-literárias.

- versão em português do original em inglês elaborada por OURIQUE, J. L. P. -


Considerando as reflexões presentes no texto acima, comente algumas possibilidades acerca dessas “novas estratégias sociológico-literárias” mencionadas. Nas suas leituras sobre o tema literatura e sociedade você identificou algum elemento crítico que pudesse sustentar consistentemente sua leitura de uma obra literária? Esse elemento está mais vinculado com a materialidade do texto ou com a cultura na qual essa produção está inserida? Como você percebe a relação litertura e sociedade – como um elemento complementar ou como algo fundamental para sua leitura? Cite ao menos uma leitura de um texto literário que vá ao encontro das suas respostas (pode ser tanto uma leitura própria quanto de um crítico especializado).

52 comentários:

  1. Sem argumentos e com muito sono. Guardo energias para o próximo.

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  2. Um exemplo de obra literária que pode ser observada quanto ao aspecto das novas estratégias mencionadas no texto acima é o romance “O cortiço ”de Aluísio de Azevedo, em que os personagens são divididos em grupos étnicos e não somente em classes sociais.
    O fato mais relevante na obra não é a materialidade do texto e sim a forma como a obra se relaciona com a cultura em que ela esta inserida.
    Quanto ao tema Literatura e Sociedade, nesta obra, podemos observar que elas estão intimamente ligadas, visto que o tema da narrativa retrata fatos possíveis de uma determinada fase da história brasileira.
    Caroline F. Pinheiro.

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  3. As estratégias mencionadas no texto, acerca da literatura e sociedade, são interessantes e acredito que respondem ao momento em que estão inseridas. Considero importantes tais estudos, pois aproximam, mais evidentemente, a literatura daquilo que acontece na sociedade, ou seja, as narrativas podem ser refletidas naquilo que se vive e da perspectiva de quem assiste e que vivencia propriamente (o que, de fato, pode ser identificado em várias obras).
    Um elemento que é possível ser identificado na leitura do livro Morangos Mofados, um livro de contos de Caio Fernando Abreu é a critica social acerca do fim da ditadura militar. Ou seja, um momento em que as pessoas estavam “perdidas”, ainda se reestabelecendo de um momento único (no sentido ruim) do país. Nas narrativas do livro, encontramos as pessoas ainda perdidas, ainda não compreendendo muito bem o que fazer, como fazer, como por exemplo, o conto Os Sobreviventes. O próprio titulo do conto, já pode ser identificado e ligado ao contexto em que a obra está inserida, no entanto, e só toma tal sentido em função do contexto da social em que a obra está vinculada.
    Acredito que mesmo, ingenuamente, quando lemos uma obra já relacionamos com o contexto social em que ele foi escrita. Não vejo muitas possibilidades de desvincular a obra desse contexto, e embora outras correntes da critica literária (como os formalistas) desconsiderem tal comparação para realizar estudos sobre uma obra, acredito que a relação é indispensável no ato de leitura.

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  4. André Torres pseudônimo utilizado por Antonio Carlos Rosa Quinta em sua obra Exílio na Ilha Grande, texto que trata basicamente de sua carreira criminosa na cidade do Rio de Janeiro no final da década de 60 e inicio da década de 70. Esta narrativa pretensamente autobiográfica pretende no fundo equiparar um criminoso comum aos militantes de grupos da esquerda armada que enfrentaram a ditadura militar brasileira no mesmo período.
    Os pontos de apoio para que André Torres faça tal associação são o fato de ser jovem, como boa parte dos quadros que pertenceram a luta armada; o fato de pertencer a uma organização, o autor foi um dos fundadores da Falange Vermelha, embrião do futuro Comando Vermelho; e o pano de fundo o clima de opressão que o pais vivia em que ambos tanto criminosos comuns quanto organizações de esquerda tentavam se movimentar e em última analise sobreviver.
    A vertente teórica do marxismo ao ser aplicada a literatura permite estabelecer um ponto de entrada no texto de André Torres, e este ponto é justamente buscar compreender o contexto da época e mais especificamente a conjuntura política de repressão instaurada pela ditadura militar. Toda a analise de sociedade, que a teoria marxista fornece em seus modelos explicativos, serve para ajudar a entender o esforço feito pelo autor para se identificar como os opositores do regime militar.
    A manobra complicada e habilmente construída por André Torres de apresentar a si e seu grupo de criminosos comuns como uma alternativa de resistência à ditadura nos moldes do que fazia a esquerda armada no Brasil é uma tarefa literária, ao menos em sua tentativa.
    Para empreender esta tarefa inicialmente o autor já em sua introdução à obra parte da falta de alternativas para a juventude e vincula a opção pela criminalidade expressa na materialidade do texto, já que toda obra é uma tentativa de justificar suas ações de criminoso comum como uma forma de resistir à opressão, fazendo com isso toda a associação entre a literatura que busca construir como sendo oriunda das condições sociais sob as quais está imerso, e isto é uma condição fundamental para a existência e significado de Exílio na Ilha Grande.

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  5. “Literatura e Sociedade” é preciso voltar ao ano de 1959, ano que vinha à luz das publicações nacionais o livro “Formação da Literatura Brasileira”, estudo do professor Antonio Cândido sobre as principais obras e autores do Arcadismo e Romantismo. Nesse livro, o crítico explica seu sistema literário, mais especificamente a tríade formada por autor-obra-público. Em “Formação da Literatura Brasileira”, Cândido prende-se no Arcadismo e no Romantismo, por ver nesses dois movimentos o início de nossa Literatura Nacional.
    Em 1965, com “Literatura e Sociedade”, o autor retoma o seu sistema e salienta a importância do ambiente na tríade. Cândido fala do valor da interpretação social de obras literárias, ressaltando que essa interpretação social não deve anular a interpretação estética, isto é, o externo (meio) não deve sobressair-se ao interno (a obra em si).
    Ainda em “Literatura e Sociedade”, o crítico retoma o Arcadismo e o Romantismo (séculos XVIII e XIX), todavia vai além; esquadrinha os autores, as obras, todos de relevante importância de nossa literatura, até a geração de 45 (século XX). Questionamentos sobre nossa formação literária e nossa independência são expostos no estudo. Para Cândido, é no Arcadismo que começa a produção literária nacional. Segundo ele, antes só tínhamos apontamentos de literatura. É com os árcades que as coisas da terra, a descrição, a cor local começam a surgir em nossa literatura. Mas não é só isso, há também um interesse em contar nossa história. Exemplos disso são as poesias épicas “O Caramuru”, de Santa Rita Durão e “O Uruguai”, de Basílio da Gama, dois autores admirados pelos românticos , que enxergam neles a possibilidade de continuação do tema nacional. Já na primeira metade do século XX, os modernistas são de grande importância pelo vasto trabalho de pesquisa folclórica, por apresentarem maior liberdade na escrita poética e ficcional e, principalmente, por serem um “abre-alas” literário às futuras gerações, principalmente a de 45.
    Percepção da relação literatura e sociedade, a obra Ensaio sobre a cegueira (1995) de José Saramago, com base nos pressupostos da crítica sociológico, reflete a relação entre arte e sociedade. A relação entre literatura e sociedade se apresenta na configuração do romance, especificamente no trabalho com os valores dos indivíduos no contexto social dos séculos XX e XXI (inicio), possibilitando reflexões quanto às escolhas, atitudes e pensamentos do indivíduo contemporâneo. O romance de José Saramago apresenta, de um modo geral, uma constante preocupação com os conflitos humanos sendo estes internos e externos, suscitando reflexões sobre a condição humana em sociedade. O trabalho com essa temática acompanha o autor que, desde seus primeiros escritos, ainda que sobre outros gêneros, como o poético, já era tocado pelos efeitos da relação do ser humano consigo mesmo, com o outro e com o mundo ao seu redor: “o sofrimento humano, o desengano, toda uma constelação temática da impossibilidade vão articular-se intimamente com a problemática liminar do encontro da arte, da invenção do sentido poético, do lampejo fugaz que pode fazer vibrar liricamente a palavra” (SEIXO, 1987, p. 08).

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  6. Literatura e sociedade acredito eu, que tenham muito em comum. Primeiramente por que à partir do momento em que lemos uma obra, automaticamente vinculamos-na com o contexto social na qual ela está inserida, o que faz com que localizemo-nos com relação a uma série de fatores importantes como época, quais eram os costumes, entre outros. Portanto acredito que a cultura é uma forte influenciadora em todos esses períodos pelos quais a literatura passou. Uma obra que posso citar, que gosto muito, é Madame Bovary, de Gustave Flaubert, onde a cultura da época influenciou totalmente na construção da obra, a começar pelo título, que remete a algo antigo; além da crítica (formalista) à mulher adúltera e a maneira como conduziu sua vida, não esquecendo também dos micro detalhes em que o narrador descreve quase que integralmente o "cenário" onde se passa a história.
    Por isso, reafirmo a importância do contexto cultural na compreensão de uma obra, onde a relação literatura x sociedade é algo fundamental para a minha leitura.
    Segundo Antonio Candido, em Literatura e Sociedade, "Para a sociologia moderna, porém, interessa principalmente analisar os tipos de
    relações e os fatos estruturais ligados à vida artística, como causa ou consequência. Neste sentido, a própria literatura hermética
    apresenta fenômenos que a tornam tão social, para o sociólogo, quanto a poesia
    política ou o romance de costumes, como é o caso do desenvolvimento de uma
    linguagem pouco acessível, com a consequente diferenciação de grupos iniciados, e efeitos positivos e negativos nas correntes de opinião.
    Assim, a primeira tarefa é investigar as influências concretas exercidas pelos
    fatores socioculturais."

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  7. Estas novas estratégias de interelacionar os textos literários com o seu contexto social são essenciais, pois ao se estudar uma obra, para que se dê uma melhor compreensão, é fundamental que se conheça o contexto de produção dela. Nesse sentido, para Cândido (2006), "só podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra", ou seja, o que estava acontecendo na sociedade na época da produção e qual a influência destes elementos na obra. Na leitura do livro "A Metamorfose", de Kafka, levando-se em consideração o contexto social, pós revolução industrial, a sociedade estava tornando-se bastante competitiva e fortemente capitalista. Gregor Samsa, após a metamorfose, não usufruía mais de seu lugar neste meio social, tendo em vista agora a sua fraqueza/incapacidade de produzir capital. Este desprezo é observável dentro de sua própria casa, quando seus pais não cuidam dele, já que ele não provia mais o sustento de toda a sua família. Portanto, é fundamental que uma obra seja analisada com vistas ao contexto cultural no qual ela está inserida.

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  8. O desenvolvimento de "novas estratégias sociológico-literárias”, conforme aponta o texto,é necessário devido à falta de unidade na sociedade atual. Essa falta de unidade faz com que tenhamos diversos grupos sociais que se relacionam, coexistem, mas não têm muito em comum.
    Nesse sentido, a produção literária acaba voltando-se para um determinado público alvo dentro dessa sociedade polarizada ou tentando atingir todos os grupos, representando na literatura a pluralidade social.
    Se pensamos na sociedade brasileira nas primeiras décadas do século XX, vemos muita energia voltada à crítica ao estágio atrasado em que o Brasil se encontrava no momento e vários grupos empenhados na modernização do país nas áreas da indústria, da educação, da política e também das artes e da literatura. Esses grupos buscaram estratégias para alavancar a entrada do Brasil na modernidade e transformá-lo num país mais desenvolvido. Nagle (2001) descreve as primeiras duas décadas do século passado como de otimismo das diversas correntes de ideias em torno desse projeto de modernização.
    Na leitura de "Urupês" de Monteiro Lobato, é possível identificar esses elementos sociais: a crítica ao atraso em que o Brasil se encontrava aparece de forma dura, exagerada, na figura do Jeca Tatu. Essa crítica ao "antigo e atrasado" modo de funcionamento do Brasil foi o que impulsionou todas as mudanças ocorridas no país no início do século XX.

    Vivian Anghinoni Cardoso Corrêa

    Referência: NAGLE, Jorge. Educação e sociedade na Primeira república. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

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  9. A partir das leituras e das discussões em aula pode-se concluir que na perspectiva marxista o materialismo histórico baseia-se no fato social e não individual. Literatura e sociedade é um reflexo dos fatores históricos e sociológicos e de sua evolução. Conforme a revista do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada (FFLCH-USP), Literatura e Sociedade 12:
    “Os parceiros do rio Bonito pode ser lido como uma interpretação abrangente sobre os processos de “formação” e de “modernização” da sociedade brasileira, analisados a partir do mundo social do caipira. Nessa direção, inscreve-se na melhor tradição do ensaísmo brasileiro ao mesmo tempo em que incorpora perspectivas e problemas desenvolvidos pela Sociologia paulista a partir da década de 1940.” Pg 75

    Maristela Cardoso da Rosa

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  10. Não é possível dissociar a Literatura da sociedade, ao mesmo ponto que também não é conveniente analisar uma obra somente pelo viés da divisão social entre classes. Uma Obra que representa muito bem a divisão de classes sociais é "Um Apólogo" de Machado de Assis, na qual a Agulha representa a costureira, abrindo caminho para a Baronesa, representada pela linha. A primeira com seu trabalho sustenta a sociedade da segunda.
    Pelotas tem uma história marcada por riqueza adquirida com as charqueadas do século 18, exaltando a alta classe burguesa e toda a sua pompa. Entretanto esquecidos ficam as classes que trabalharam para isso, como a dos escravos, citados na poesia de Antonio Fagundes em Escravo de Saladeiro:
    "A dor do charque é barata o sal te racha o garrão
    É fácil ver tua pata na marca em sangue no chão
    O boi que morre te mata pouco a pouco meu irmão"
    Então podemos ver que muitas vezes a Literatura dá voz a quem a história esqueceu, embora essa não seja a pretensão da literatura, também não podemos negar que muito as artes estiveram ligadas aos conceitos sociais. Para finalizar, deixo um poema de um autor contemporâneo de Piratini, Juarez Machado de Farias, Se Marx fosse peão.

    "A estância se acordou em dia de camperiada
    Chiando pelas cambonas, prá se iniciar a mateada
    De repente um peão barbudo, atando a segunda espora
    Abriu a boca sisuda, pondo "o zóio" campo afora
    E falou pros companheiros de mesmo rumo e ofício
    Numa tal de mais valia,

    Falando em tom de comício, contando um pouco de história...
    A peonada leva tropa prá morrer no matadouro
    Esfola a bunda nos "basco", o sol velho queima o couro
    Mas o patrão barrigudo é que embolsa todo o ouro

    Se madruga todo o dia prá laçar e curar bicheira
    Se afunda o garrão no barro, com essas vacas da mangueira
    E co que nos sobra de tudo?
    Só hemorroida e frieira

    ... Ainda fazem rodeio, em nome da Tradição
    Os boi com a língua de fora prá alegria do patrão
    O que era duro ofício se transforma em diversão

    E tem mais: A propriedade deve ser de quem trabalha
    Quem sustenta a casa grande são nossos ranchos de palha
    Se a peonada joga truco, o patrão é que embaralha

    ... e a estância continuou, no mesmo tranco afinal
    Terêncio jogando laço, Nestor montando o bagual
    E o patrão com a guaiaca forrada dos capital."

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  11. Há uma tendência em se verificar a influência do meio social na arte, bem como o influxo desta sobre aquele. Essa questão é amplamente discutida por Antonio Candido, em seu livro intitulado Literatura e Sociedade, no qual esse estudioso afirma que para o sociólogo moderno a arte “depende da ação de fatores do meio, que exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando sua conduta e concepção do mundo ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais” (CANDIDO, 2000, p. 19). De acordo com essa concepção, os artistas não se comportam como seres apáticos ante os problemas de sua época e a obra de arte assume um caráter disciplinador que passa pela construção de uma forma, a qual representa uma estrutura do mundo social.

    Em "O cortiço" aparecem basicamente duas linhas de conduta: uma que trata das questões sociais e outra das questões individuais e sentimentais. No caso das questões sociais, temos como maior representante a personagem João Romão, que torna-se um grande comerciante passando por cima de tudo e todos. Assim, através de uma representação crua das relações sociais, que aqui são puramente movidas pelo interesse individual, têm-se uma crítica social. Já nas questões individuais/sentimentais, temos a personagem de Jerônimo, que casa com a Rita Baiana, mas não por amor. Ele se envolve com ela porque se sente atraído sexualmente por ela.

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  12. Teóricos inspirados pelo Marxismo começaram a observar nuances da complexa interelação dos textos literários com o seu contexto social. A literatura vista como fenômeno de civilização, depende, para se constituir e caracterizar, do entrelaçamento de vários fatores sociais porque ela está vinculada à sociedade em que se origina como todo tipo de arte e promove desta forma a transformação social.Texto e contexto são indissociáveis para a compreensão da obra dentro de novas estratégias de interelacionamento literário.
    Um exemplo destas novas estratégias é o poema Elegia 1938 de Carlos Drummond Andrade no qual a leitura deste poema mostra que a poesia permanece sempre atual pois sugere um questionamento sobre conflitos sociais recentes como é mostrado no último verso: " dinamitar a ilha de Manhattan" o que podemos relacionar ao 11 de setembro, nos Estados Unidos.


    Elegia 1938

    Trabalhas sem alegria para um mundo caduco.
    Onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
    Praticas laboriosamente os gestos universais,
    sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
    Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
    e preconizam a virtude, a renúncia,
    o sangue-frio, a concepção.
    À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
    ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
    Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
    e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
    Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
    e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
    Caminhas entre mortos e com eles conversas
    sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
    A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
    Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
    Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
    e adiar para outro século a felicidade coletiva.
    Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
    porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

    Elegia, nome dado pelos gregos, poesia cujo tema ligava-se à morte, em um tom triste e de lamentação. O ano de 1938 é de grande desenvolvimento industrial e uma grave crise social e política que culminaria na segunda guerra mundial.Aqui nesta obra, literatura e sociedade se interligam no texto e contexto social.








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  13. Como preâmbulo de minha postagem, sinto-me na obrigação de propor uma reflexão. KEUNEN cita três nomes usados para designar a nova disciplina no campo crítico-literário: "sociologia da literatura", "poética sociológica" e "sociologia literária".
    Nota-se que a raiz latina "societas" está presente nos três nomes acima. A palavra "sociedade" em língua francesa, por exemplo, é notoriamente utilizada a partir da Idade Moderna (conforme o site www.cnrtl.fr/definition/societe) com sentidos distintos: união e aliança, comércio comum, congregação dos Jesuítas ou até mesmo companhia dos sábios. Em oposição ao individual, a cultura e a civilização se desenvolvem em sociedade. Concluo esta introdução citando uma citação de 1889 bastante relevante do filósofo contemporâneo francês de linha espiritualista Henri Bergson:
    "Se cada um de nós vivesse uma vida puramente individual, se não houvesse nem sociedade nem linguagem, nossa consciência obteria a série de estados internos sob esta forma indistinta?" (BERGSON ,Essai donn. imm., 1889, p. 110).

    "O homem nasce bom, é a sociedade que o corrompe", como defende Rousseau, atesta que a vida em sociedade influencia diretamente e indiretamente, conscientemente e inconscientemente o indivíduo. É, no entanto, pré-requisito que este último seja capaz de compreender os estímulos externos (discursos) por meio dos sentidos (ciência empírica).

    Fortalecido pelo "Pragmatismo" de William James & Charles Sanders Peirce, os discursos aos quais o indivíduo teve acesso ao longo de sua formação influenciam inevitavelmente e de intensidades diferentes nas suas produções discursivas. Assim sendo, ao decorrer da história da humanidade (assim como da literatura), a recente "crítica literária" teve de passar por várias etapas de "busca de propósito e de identidade" principalmente depois do "saculejo" positivista do século XIX.

    Estruturalismo, Formalismo, Desconstrutivismo e Sociedade Literária: todos os prismas de análise da literatura (ou "Literatura" conforme Benjamin) se manifestaram originalmente em suas respectivas épocas por influências externas submissas a um "materialismo histórico". Logo, esta reflexão evidencia que a crítica literária de um autor "A" e de sua obra "B" não pode ter surgido do mero vácuo, assim como um crime não foi ocasionado do nada (podendo se produzir "o não-descoberto", mas nunca "o inexplicável"). Uma boa estatística poderia ser realizada: quantos autores produzem literatura 100% desconexo com os discursos aos quais teve acesso? Aliás, se uma enquete desta for elaborada, a própria literatura sofrerá mais um atentado ao seu valor peculiar. Em contrapartida, se for declarada a "morte do autor" jackobsoniana, na crítica de uma obra, até mesmo assim, analisa-se o cenário portando um outro tipo de óculos que é inquestionavelmente submisso à leitura subjetiva (pragmaticamente falando, não mais empiricamente). O ato de desvincular a literatura da sociedade corre o risco de se tornar "kitsch" ou não apropriado para o atual paradigma einsteiniano típico do ocidente, onde "tudo é relativo" e, cartesianamente falando, "nada é por acaso".

    Concluo que se Sócrates, Aristóteles, Platão, Maomé, Buda, Moisés, Jesus Cristo, apóstolo Paulo, Constantino ou até mesmo Marx ressucitasse hoje e tivesse acesso ao que se lê sobre eles e seus discursos através dos tempos, tenho minhas dúvidas se a seguinte frase não seria repetida como um eco por eles: "não foi isso aí que eu quis de fato dizer". Mesmo se seus discursos condisserem com a intenção original deles, eles continuarão a ser lidos e estarão sempre a mercê de interpretações extravagantes em relação ao propósito inicial da obra, porém relevantes para a época de leitura. Por meio das teorias modernas da crítica literária, as leituras são auxiliadas por diversas ciências contemporâneas aquém da saborosa e milenar literatura.

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  14. O fator social é muito importante para a literatura e demais artes. É o elemento que vincula a obra em si com o ambiente, os costumes, os traços grupais e ideias. As condições sociais são referência para compreender e indicar o significado de uma leitura. Os fatores sociais internos da obra não complementam o todo, mas são essenciais para situar a obra no contexto sócio cultural em que está inserida, porém muitas vezes temos de recorrer ao estudo da vida do escritor,( sua infância), para termos um entendimento mais eficaz.
    Portanto o externo correlacionado com a materialidade do texto formam a realidade ou o todo (significado).
    O elemento social interfere na economia, psicologia, religião e linguística, na obra e visão do autor.
    Refletindo sobre a interligação do social influenciando a literatura e as artes, lembrei da música de Roberto Carlos / Erasmo Carlos: " Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", poderíamos dizer, somente a partir dos conteúdos nela expressos que ela fala sobre uma pessoa que se encontra em um lugar distante, que não está feliz e que tem como sonho voltar para seu lugar de origem. No entanto, se tivermos conhecimento de alguns elementos relevantes do contexto sócio cultural em que a letra foi produzida, como por exemplo, o fato de que ela foi produzida quando vários intelectuais tiveram de sair do Brasil e viver no exílio em outros países, por causa da ditadura militar, seria possível fazer uma outra leitura, ou seja, seria possível dizer que o poeta / locutor não fala simplesmente de uma pessoa triste em um lugar distante, mas dos sentimentos de tristeza e de vazio de uma pessoa quando esta se encontra no exílio, obrigada a ficar longe de sua gente, de sua cultura, do seu lugar. " Você anda pela tarde/ E o seu olhar tristonho/ Deixa sangrar no peito/ uma saudade um sonho..."

    Bibliografia: Cândido Antônio- Literatura e sociedade
    Bentes Anna- Linguística Textual

    Marilene Nunes

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  15. As “novas estratégias sociológico-literárias” possibilitam uma maior interação entre o contexto social em que os indivíduos estão inseridos e as obras literárias produzidas, mostrando a contradição entre o vivido e o idealizado, ou a própria reprodução do cotidiano, dentre muitos outros aspectos, sendo assim, algo fundamental a crítica.

    A técnica de reprodução, visualizada como elemento crítico para sustentar uma leitura de obra literária, permite sua vinculação tanto com a materialidade do texto quanto com a cultura a qual está inserida, por ambos os elementos estarem presentes na obra literária, seja ela qual for.

    “Walter Benjamin, em seu famoso opúsculo A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica (1936), mostra como as técnicas de reprodução contribuíram decisivamente para transformar a arte em mercadoria. O processo de reificação, observado por Georg Lukács, estende-se para o todo da sociedade. Segundo Lukács, “A universalização da forma mercantil condiciona, pois, no plano subjetivo como no plano objetivo, uma abstração do trabalho humano que se objetiva nas mercadorias.” Mais ainda:

    A metamorfose da relação mercantil em coisa dotada de uma “objetividade fantástica” não pode, pois, limitar-se à transformação em mercadorias de todos os objetos destinados à satisfação de necessidades. Imprime a sua estrutura a toda consciência do homem; as propriedades e faculdades desta consciência não estão ligadas somente à unidade orgânica da pessoa, aparecem como “coisas” que o homem “possui” e, “exterioriza”, tal como os diversos objetos do mundo exterior.

    A transformação da arte em mercadoria teria ocorrido em meados do século XIX. Certo, a arte sempre foi comercializada, porém o desenvolvimento das técnicas de reprodução propiciou um comércio em larga escala. Tais técnicas baratearam os custos da maioria dos bens culturais, possibilitando o acesso dos trabalhadores a eles.”
    (http://www.raf.ifac.ufop.br/pdf/artefilosofia_11/Critica_Cultural.pdf)

    (Carolina Brahm da Costa)

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  16. Acredito que essas novas estratégias sociológico-literárias são necessárias para abranger todos os subconjuntos que compõem a sociedade moderna, a qual não é homogênea e constante, e podem ser adaptadas às características do grupo social retratado pela obra literária a ser criticada, sem se ater apenas à divisão hierárquica das classes.
    O tema da briga entre famílias rivais é um elemento crítico que aparece em diversas obras. No Brasil, a clássica trilogia “O tempo e o vento”, de Erico Verissimo, retrata as desavenças entre o clã Terra Cambará e os Amaral. Mas um exemplo mais eficaz e que talvez melhor ilustre o fator externo (social), “não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno” (CANDIDO, 2011, p. 14), seria o exemplo de “Abril despedaçado”, do albanês Ismail Kadaré. O enredo constrói-se com a rixa de setenta anos entre as famílias Berisha e Kryeqyq e, funcionando quase como um elemento ficcional, o “kanun” – código moral que, transmitido oralmente nas regiões montanhosas da Albânia, regra os crimes de sangue no país. Nesse caso, então, o elemento parte da cultura na qual está inserida a obra para se materializar no texto, uma vez que o exemplo de fator social (“kanun”) é o que rege as ações dos personagens.
    Em 2001, “Abril despedaçado” baseou o filme homônimo de Walter Salles, o qual, alterando o espaço, transpôs os fatos narrados no livro para o sertão brasileiro das primeiras décadas do século XX (AVELLAR, 2007, p. 335). Por meio dessa escolha do cineasta, é possível pensar que, às vezes, podemos aproximar certos grupos sociais – os quais, apesar de geograficamente distantes, apresentam não equivalências, mas afinidades.
    Portanto, percebo a relação entre literatura e sociedade como algo fundamental para todas as minhas leituras, pois a compreensão dos fatores sociais que perpassam pelas obras equivale à boa parte da compreensão das próprias obras.

    Danielle R. Betemps, em 05/01/2014.

    Obras citadas:
    AVELLAR, José Carlos. O chão da palavra. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
    CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade: Estudos de Teoria e História Literária. 12. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.
    KADARÉ, Ismail. Abril despedaçado. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
    VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte I: O Continente 1 / O Continente 2. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. (Edição econômica).

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  17. Vou entregar na aula.
    Rebeca Werner

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  18. As novas estratégias aproximam a literatura e o cotidiano da vida nos tempos em que se vive hoje. É uma maneira de valorizar o que acontece na sociedade moderna e também a literatura.
    Acredito que o contexto em que as obras são escritas é muito importante para o entendimento pleno delas. Não há como desvincular a história narrada e o contexto em que ela está inserida.

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  19. A literatura reflete as relações do homem com o mundo e com os seus semelhantes. Na medida em que elas se transformam historicamente, a literatura
    também se transforma, pois é sensível às peculiaridades de cada época, aos modos de encarar a vida, de problematizar a existência, de questionar a realidade, de organizar a convivência social, etc. Ao termos acesso a obras literárias, temos a interpretação das “verdades da vida” e ainda encontramos no mundo ficcional, reflexos de nossas próprias angústias, paixões, desencantos
    e alegrias. Portanto, o contato com a obra literária contribui para a formação e para o crescimento de indivíduos em várias dimensões da vida.
    Uma das obras que li e que vem ao encontro do meu pensamento a partir do tema em questão é "O Alienista", de Machado de Assis. A história, que se passa no séc. XlX, retrata a burguesia hipócrita da época, o autor se vale do personagem magnífico — Dr. Simão Bacamarte — médico que irá desenvolver suas teorias a respeito do tratamento da loucura, conhecimento adquirido em sua estadia na Europa. A ironia de Machado de Assis é notória nesta novela, quando mostra a hipocrisia do ser humano que só pensa em seu próprio prestígio. Dr. Simão Bacamarte, casado com apática senhoura, consegue da Câmara de Vereadores de Itaguaí, verba para fundar a “Casa de Orates”, ou “Casa Verde”, um hospício onde o sinistro e empertigado médico resolve estudar os limites entre a razão e a loucura, convencendo as autoridades e a população de que estudar este mal era tendência na Europa. Fica então a cidade à revelia deste homem que resolve, por sua conta e risco, julgar quais eram os loucos da cidade e quais os sãos.Vai internando, um a um, os verdadeiramente doentes que até então eram tratados e cuidados em casa pelos familiares. Aos poucos Simão Bacamarte, num surto surpreendente, resolve que os honestos e os justos eram também loucos. Chega ao ponto de internar quase toda a cidade. Na medida em que vai analisando suas teorias, vai alterando o tratamento dispensado aos pacientes.Mas a cidade já está desconfiada do médico insano, assim, a reação não tarda e uma revolução armada irá contestar o médico que, acuado, toma resolução inusitada, surpreendente.Aqui, em O Alienista, o leitor se diverte, ri a valer, mas perceberá a irônica crítica de Machado de Assis à sociedade burguesa daquela época. Um livro gostoso de ler, uma surpresa a cada página, personagens atípicos e crédulos da suposta superioridade européia na medicina da loucura. Tremenda crítica à sociedade que o autor nunca perdia oportunidade de mostrar patética e hipócrita.

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  20. Na época da ditadura militar, as obras surgiam com o objetivo de crítica ao regime autoritário, e eram, de certa forma, uma chance de “voz” a opressão e a censura vivida. Atualmente, já distante desse regime, vivemos em uma sociedade em que há liberdade de expressão, mesmo que isso seja por muitos contestado, o que de fato favorece maior liberdade de reivindicar nossos direitos.
    A obra Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca foi censurada e proibida de circular, durante o regime militar, um ano após sua publicação, por fazer apologia a violência. No entanto, almoçamos, hoje em dia, assistindo cenas absurdas de violência na televisão, sem que haja nenhuma censura.
    Seja através de debates em redes de ensino, de conversas entre grupos e principalmente por meio da grande mídia televisiva, há espaço para a discussão de problemas que envolvem a sociedade em geral. Daí surge a necessidade de se pensar em novas estratégias sociológico-literárias, para uma sociedade nova, moderna, que mostra-se heterogenia pela sua diversidade e pela impossibilidade de divisão em classes sociais tão definidas e homogenia no sentido da sua “obediência” a influencia da mídia.
    Graciela da Rocha Rodrigues

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  21. Não se pode analisar uma obra literária sem levar em conta o contexto social em que ela está inserida, é preciso reconhecê-lo para se ter uma análise mais coerente com o que o autor propôs a obra. Candido defende uma analise vinculando obra e o ambiente “ O externo importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se assim, interno.” ( Candido Antonio -Literatura Sociedade, 1965).
    Partindo dessa premissa seria impossível analisar Vidas Secas de Graciliano Ramos sem considerar o contexto social vivido no sertão nordestino na época.
    Fabiane Cassana Rosa

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  22. A literatura é muito importante pois não é um meio apenas para contar histórias e fatos, mas também uma forma de localizar uma sociedade através dos tempos, e de fazer críticas e expor ideias desta mesma sociedade.
    Em SENHORA de José de Alencar podemos observar a nítida critica que o autor faz a sociedade da época e seus "colunhos" matrimoniais" como meio de alcançar prestigio e posição na época, fazendo " cair" a frente do leitor a imagem de uma sociedade mesquinha e soberba.

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  23. O tema "literatura e sociedade" pode ser percebido em "O Amor de Pedro por João", de Tabajara Ruas. O contexto histórico é o golpe militar de Augusto Pinochet, no Chile. Com o decorrer da narrativa, percebemos como aquele contexto social afetou a vida dos personagens negativamente.

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  24. No ensaio sobre a Lucidez (2004) observar-se o modo como as obras apresentam a sociedade humana, percebendo-as como objeto artístico que se origina e retorna do meio no qual foi produzido, trazendo consigo reflexões sobre a relação entre seres humanos e estrutura social. A abordagem adotada tem base nos estudos de Antonio Candido e George Lukács, teóricos que, apesar da distância temporal e espacial entre eles e, além do fato de possuírem tênues diferenças em seus conceitos, são estudiosos considerados representantes do viés crítico sociológico, cada um a seu modo, pois estudam a relação entre literatura e sociedade.
    Os romances de José Saramago apresentam, de um modo geral, uma constante preocupação com os conflitos humanos sendo estes internos e externos, suscitando reflexões sobre a condição humana em sociedade. O trabalho com essa temática acompanha o autor que, desde seus primeiros escritos, ainda que sobre outros gêneros, como o poético, já era tocado pelos efeitos da relação do ser humano consigo mesmo, com o outro e com o mundo ao seu redor: “o sofrimento humano, o desengano, toda uma constelação temática da impossibilidade vão articular-se intimamente com a problemática liminar do encontro da arte, da invenção do sentido poético, do lampejo fugaz que pode fazer vibrar liricamente a palavra” (SEIXO, 1987, p. 08).

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  25. A partir da leitura da obra de Antônio Candido, Literatura e Sociedade, percebe-se como a obra, ou literatura, influência a sociedade e vice e versa. Candido se faz de variados exemplos para explicar esta via de mão dupla e como o externo transforma-se interno deixando de ser sociológico para ser apenas crítica. O fato é que para entender a literatura e a sociedade é preciso ter em mente o circuito literário: autor, obra e público, no qual há uma evidência enorme na ligação da literatura com a sociedade. O autor, para criar uma obra vai partir do meio em que vive, isto é, vai olhar para sociedade e utilizar este panorama para sua criação. Antônio Candido utiliza um exemplo muito bom para explicar a influencia do público no autor e, consequentemente em sua obra. Sir Arthur Conan Doyle matou seu personagem mais famoso, Sherlock Holmes, no entanto com a insistência dos fãs, teve de ressuscitar o detetive. Então, é com o social ou as relações sociais que as personagens de uma obra possuem, que através de uma comparação com a sociedade é que se pode criticar, pois de alguma forma se assemelham, Candido em relação a isso diz que: “Sabemos, ainda, que o externo (no caso o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno.” (2011. p. 14).
    Um obra que pode ser citada para melhor compreensão deste social é Senhora, obra inclusive que Antônio Candido usa como exemplo, principalmente pelo jogo de poder e dominação (econômica) que há na obra. Penso ainda que obras como o Cortiço fazem parte desta crítica social, justamente por mostrar a ascensão de João Romão, um pobre que se dá bem na vida “passando a perna” nos outros. Acredito, também que, Incidente em Antares de Érico Veríssimo, apesar de fantástico possa haver a crítica social, das personagens mortas que voltam para apontar como o governo “fede”.

    CANDIDO, Antonio, 1918-Literatura e Sociedade: Estudos de Teoria e História Literária Antonio Candido / 12ª edição revista pelo autor / Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul 2011/ 204 pág.

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  26. A leitura do poema que segue permite verificar a afirmação explícita de que a palavra poética atua de maneira decisiva como participação na vida e como forma de representação histórico-social.

    JOSÉ

    E agora, José?
    A festa acabou,
    a luz apagou
    o povo sumiu,
    a noite esfriou,
    e agora, José?
    e agora, você?
    você que é sem nome,
    que zomba dos outros,
    você que faz versos,
    que ama, protesta?
    e agora, José?
    Está sem mulher,
    está sem discurso,
    está sem carinho,
    já não pode beber,
    já não pode fumar,
    cuspir já não pode,
    a noite esfriou,
    o dia não veio,
    o bonde não veio,
    o riso não veio,
    não veio a utopia
    e tudo acabou
    e tudo fugiu
    e tudo mofou,
    e agora, José?
    E agora, José?
    Sua doce palavra,
    seu instante de febre,
    sua gula e jejum,
    sua biblioteca,
    sua lavra de ouro,
    seu terno de vidro,
    sua incoerência,
    seu ódio – e agora?
    Com a chave na mão
    quer abrir a porta,
    não existe porta,
    quer morrer no mar,
    mas o mar secou;
    quer ir para Minas,
    minas não há mais.
    José, e agora?
    Se você gritasse,
    se você gemesse,
    se você tocasse
    a valsa vienense,
    se você dormisse,
    se você cansasse,
    se você morresse...
    Mas você não morre,
    você é duro, José!
    Sozinho no escuro
    qual bicho-do-mato,
    sem teologia,
    sem parede nua
    para se encostar,
    sem cavalo preto
    que fuja a galope,
    você marcha, José!
    José, para onde?

    Em conformidade com a idéia de que texto e contexto devem estar interligados, na análise do poema José deve-se levar em consideração alguns traços sociológicos que contribuem para a atribuição de sentido ao texto. Cabe aqui lembrar que o poema está intimamente relacionado a acontecimentos históricos, os quais projetam conseqüências que repercutem no ambiente nacional e deixam marcas profundas na sociedade.

    http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/num3/ass07/pag01.html

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  27. Para analisarmos uma obra literária temos que considerar o contexto histórico e social em que ela foi produzida para torná-la possível.A literatura contribui para que possamos identificar fenômenos e fatos históricos da sociedade.
    Na obra São Bernado o escritor Graciliano Ramos aborda além das imagens construídas nas relações sociais e das redes de poder presentes na sociedade, representações de uma região estigmatizada pela seca e pelo sistema feudal e autoritário que caracterizava as relações humanas e políticas à época da escritura do romance. Tanto a fazenda São Bernardo, espaço em que se movem os personagens, quanto o livro “localizam-se” no Nordeste, região cujas referências culturais contribuíram para a construção de imagens das relações de autoritarismo e poder.

    Flamarion Silveira

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  28. Etimologicamente, a crônica por exemplo traz a noção de tempo. Sempre vinculada a um fato real, de âmbito social ou individual, é um registro algumas vezes poético ou irônico do cotidiano; numa linguagem coloquial, simples, breve e graciosa, ensina enquanto diverte; numa aproximação com o que há de mais natural no modo de ser do nosso tempo (Candido 1981).
    Os indivíduos desenvolvem visões de mundo que estão vinculadas em uma criação literária, que não são fruto nem de um sujeito isolado, muito menos de um mero reflexo de seu meio social. Essas visões de mundo são compartilhadas por membros de uma dada comunidade e também são referências a esses grupos sociais, nesse sentido, são formulações coletivas frente ao mundo. O verdadeiro autor da criação literária é esse sujeito coletivo, havendo então a necessidade do sociólogo captar as estruturas significantes desse processo sócio-histórico impresso nos romances e noutros tipos de peças literárias. Essa coletividade é entendida como uma complexa rede de relações interindividuais, nos quais há o processo em que o artista, sob o impulso de uma necessidade interior, usa certas formas e a síntese resultante age sobre o meio” (CANDIDO, 1967, p. 25).a literatura deve ser tomada como um campo que diz respeito a um conjunto de práticas, contextos e atores sociais se auto-definindo e se auto-regulando. Quer dizer, o estudo sociológico da atividade literária deve observar as práticas que dizem respeito não só à estrutura social, mas aos intuitos do escritor e dos diversos agentes culturais envolvidos na produção e apropriação do texto literário. A obra literária não é mero reflexo da consciência coletiva ou individual, mas a concretização das ações sócio-culturais tomadas por um grupo social na definição da consciência coletiva: a produção literária corresponde à estrutura mental de um determinado grupo social. Desse modo, a obra literária de uma dada sociedade e época é o resultado de diversas práticas, pressupostos, concepções expressas em valores e posturas reconhecidos enquanto tal pela colectividade.

    Esse procedimento metodológico consiste em situar sócio-historicamente autores e obras, definindo o lugar social de onde eram escritas, quais as finalidades das questões levantadas por esses intelectuais perante a sociedade, em que veículos eram publicadas e a que tipo de público o autor se dirigia. Enfim, perceber os olhares desses escritores sobre sua sociedade e os debates públicos mais importantes de sua época devem ser contextualizados. É preciso compreender a lógica das visões de mundo, dos juízos de valor e das opiniões políticas que os escritores elaboram em suas obras. Ter em conta toda essa complexidade do objeto literário é parte fundamental da elaboração de um olhar sociológico e de um consistente procedimento metodológico, apto a captar as características e peculiaridades intrínsecas na arte literária.

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  29. O social passa por um processo de interiorização em que o autor o reconstrói, aquilo que ele absorve da sociedade elaborando-o de uma maneira estética diferenciada não deixando de ser subjetiva e arbitrária. Determinadas visões específicas são o que permeiam a construção estética de um livro. Ainda, a “a criação, não obstante singular e autônoma, decorre de uma visão do mundo, que é fenômeno coletivo na medida em que foi elaborada por uma classe social, segundo o seu ângulo ideológico próprio” (CANDIDO, pág 23). Desta forma, a hipótese principal do autor é que há a invocação do fator social como um meio de explicação e estruturação da obra e de seu teor de ideias, dando-lhe elementos para determinar a sua validade e o seu efeito sobre as massas leitoras que os absorvem. Porém, isto não se simplifica à mera divisão entre fatores internos e externos. “ Os elementos de ordem social serão filtrados através de uma concepção estética e trazidos ao nível da fatura, para entender a singularidade e a autonomia da obra” (CANDIDO, pág 24). A obra pura e simples não significa um todo que se explica a si mesma, como um universo fechado a obra é orgânica sim, mas não totalmente isolada do mundo. É importante observar que a obra literária é como um conjunto de fatores sociais que atuam sobre a formação da mesma além da influência que a mesma exerce no meio social a que pertence, depois de concluída e divulgada. O fator social não disponibiliza apenas as matérias, mas também atua na constituição do que há de essencial na obra enquanto obra de arte. Deve-se perceber a literatura como um todo indissolúvel, fruto de um tecido formado por características sociais diferentes, porém complementares.

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  30. Alguns escritores escrevem sobre uma cultura ou uma sociedade inseridos numa outra sociedade ou cultura, ou até mesmo em subculturas, gerando um sistema de códigos que muitas vezes não podem ser codificados pelo leitor que não está inserido dentro dessa mesma cultura, precisando para isto um estúdio um pouco mais profundo do espaço em que a obra foi escrita, para termos um significado melhor.
    Para mim é fundamental um estudo do autor, do texto e de sua obra juntamente com o espaço e o tempo em que foi escrita, por exemplo, no conto de Cortázar “La Autopista del Sur”, o autor argentino escreve na França de um modo inusitado, os únicos personagens sáo os carros, mas, ao deter-nos um pouco mais sobre os carros e o momento, podemos ver que cada carro representa uma personalidade diferente, e com o engarrafamento ocorrido ali, as tensões logo vem à tona gerando uma pequena sociedade organizada em que logo as atribuições são dadas segundo as suas personalidades, mas isto não é todo, de forma magistral o autor translada isto para a sociedade Argentina de aquela época, criticando-a pela sua postura pouco crítica a ditadura militar.
    Claro que o autor esqueceu que ao menos os outros faziam críticas desde dentro, enquanto ele estava fora do pais, mostrando quão fina é a línea que separa o crítico, da sua crítica, e o quanto devemos ir a fundo num texto para que este possa ir além de sua a materialidade escrita, já que se não o fazemos dialogar com a sociedade a qual está destinada e da qual foi escrita, teríamos uma leitura pouco absoluta e pobre.
    Ao me identificar por utilizar uma estratégia de leitura que se enquadra perfeitamente dentro desta teoria, entendo como esta é fundamental para a verdadeira compreensão dum texto literário, como dizia o próprio Candido: “A atividade do artista estimula a diferenciação de grupos; a criação de obras modifica os recursos de comunicação expressiva; as obras delimitam e organizam o público. Vendo os problemas sob esta dupla perspectiva, percebe-se o movimento dialético que engloba a arte e a sociedade num vasto sistema solidário de influências recíprocas” (CANDIDO, página 34).

    Edgardo Piriz Milano.

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  31. Tomando como exemplo a obra Macunaíma, podemos afirmar que o texto literário reflete um momento com linguagem e metáforas que é interpretada por cada leitor de uma forma. A definição de Andrade sobre o brasileiro não ter caráter, por ele não possuir “uma civilização própria nem consciência tradicional” abre um leque de discussões que vão além dos termos morais, ela proporciona uma reflexão inclusive, sobre a situação racial no país, visto que o Brasil foi formado por três etnias: branca, negra e indígena. Brincando com esse ponto, o autor fez Macunaíma nascer negro “No fundo do mato-virgem...” transformar-se em índio, depois em branco, depois em índio, causando definitivamente uma enorme confusão étnica na cabeça do leitor. Segundo Antonio Candido, a obra é um organismo, no qual todos os fatores são essenciais a composição da mesma. “Os elementos individuais adquirem significado social na medida em que as pessoas correspondem as necessidades coletiva”. Candido diz ainda que a obra modernista, Macunaíma, rompe e reinterpreta nossas “deficiências” vendo-a como beleza e não mais como empecilho a elaboração da cultura. Ele trabalha com a questão da literatura e sociedade como um conjunto de estrutura complementares, e afirma que que não podemos tomar como real o proposto pela literatura, com isso ele diz que a literatura não se trata de uma duplicação da realidade e sim da descoberta e apropriação da realidade pelo romance.Podemos entender a literatura como elemento de constituição identidária e expressão de identidades, sejam regionais ou nacionais. Em Macunaíma temos a busca incessante da Muiraquitã que se pode ser interpretada como a busca da identidade nacional. Se a observarmos desse ângulo, podemos concluir que Andrade acreditava que pelo estudo das lendas, dos folclores, das diversas manifestações populares encontra-se o caminha para encontrá-la. Com o recorte popular essa interpretação abre também uma enorme possibilidade para entender e discutir a identidade nacional.

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  33. Transferir conceitos da matriz sociológica para interpretar uma obra literária pode apresentar outros caminhos, uma vez que estabelecemos novas relações entre as personagens nela contidas. Noções de coletividade, classes, papéis sociais, grupos favorecidos ou dominantes em oposição a grupos desfavorecidos ou submissos podem mostrar uma nova possibilidade de enxergar a obra. Com esses instrumentos, enxergamos possibilidades de relações humanas entre personagens e uma determinada configuração social, dependendo do ambiente que se analisa. Relações de poder, dominação, oposição, bem como a condição dos seres humanos que habitam a obra, podem ser encontradas se nos utilizamos das estratégias sociológico-literárias.

    Nas minhas leituras e posteriores observações sobre o tema literatura e sociedade, me chamou a atenção a linha de interpretação que, segundo Cândido (2006), seria a mais simples. Essa linha se preocuparia em “estabelecer correlações entre os aspectos reais e os que aparecem no livro” (CANDIDO, 2006, p. 19). É um aspecto que enxergo mais como vinculado à cultura na qual a obra se insere. A relação entre literatura e sociedade, para interpretar literatura, pode ser um elemento tanto complementar quanto fundamental. Já para a leitura específica que faço – a da obra Os Ratos, de Dyonélio Machado –, julgo ser um elemento fundamental. Entender os problemas da obra e a condição da personagem Naziazeno Barbosa, em toda a extensão do texto, é uma tarefa cujo resultado só será mais proveitoso se estabelecermos as devidas relações no âmbito sociológico.

    Guiando-nos por conceitos dessa área do conhecimento, podemos fazer, no mínimo, algumas afirmações. Se nos perguntarmos em que cultura essa obra se insere, podemos nos ambientar em Porto Alegre, por volta da década de 30. A cidade está começando a sentir os efeitos da modernidade, modificando-se intensamente por conta das obras – o que se pode notar em uma das cenas, que se passa nas docas em construção. Bancos e repartições públicas são estabelecimentos que desempenham papéis importantíssimos na coletividade, bem como os cafés. Modernidade, aliás, é um conceito que ativa toda uma condição social do homem. Cada vez mais, a sensação é de impotência – vive-se um dia após o outro e os objetivos a serem atingidos rapidamente se esvaem para dar lugar a outros.

    Podemos nos perguntar, também, a respeito de alguns valores que essa sociedade cultua. O dinheiro desempenha papel importantíssimo na trama. Ele movimenta o enredo do romance e se manifesta em diversas entidades: estabelecimentos (bancos), ocupações (banqueiros, bancários, tesoureiros donos de casas de penhores e os vários agiotas).

    Ainda, mais uma pergunta pode ser feita: quem é essa personagem principal na coletividade? Qual é o seu papel social, qual o seu emprego? Naziazeno Barbosa é um funcionário público. Ele não gerencia o próprio negócio, o que não o coloca necessariamente numa posição dominante ou financeiramente segura na sociedade em questão – em outras palavras, ele não é exatamente alguém que delegue as funções, como o Doutor Romeiro, diretor da sua repartição. Recebe ordens de um superior. No entanto, ele também se encontra em posição diferente daquela de uma classe operária, já que seus serviços não exigem pressa. Diante da acomodação que essa condição lhe oferece, envolve-se em dívidas e só se vê encurralado quando o leiteiro lhe dá um ultimato de um dia. Isso nos apresenta a possibilidade de interpretação de uma atribuição da experiência individual à coletiva, mostrando um comportamento frente ao dinheiro que não é só de Naziazeno, mas de todo um grupo contemporâneo. A relação de agiotagem como algo presente ao longo do romance explicita isso. Se os agiotas existem, é porque pessoas precisam deles. Os empréstimos de bancos e as casas de penhores também refletem isso. Como estabelecimentos intensamente vinculados a essa sociedade e como legitimadores de uma importância excessiva dada ao dinheiro, beirando um comportamento destrutivo.

    Thais Barbieri
    08/01/2014 – 17:22

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  34. LITERATURA E SOCIEDADE
    Como desvincular a obra literária do contexto histórico-cultural em que foi criada? Como, por exemplo, desvincular Capitães de Areia, de Jorge Amado, do contexto político-social em que vivia o país na década de 30? Tanto a situação política quanto as ideias do autor ligadas ao comunismo foram fundamentais na criação da referida obra. E tal ocorre em qualquer obra, pois não há como criar sem levar em conta todo o conteúdo cultural que o próprio autor traz consigo.
    A análise de qualquer obra pelo viés da cultura que lhe é peculiar é a que mais se aproxima da gênese da desta, pois vai ao seu interior, conseguindo chegar o mais próximo possível das intenções do autor ao escrevê-la, ou seja, materialidade textual e cultura em que está inserido, como questionado, estão quase que imantados pois, um depende do outro, um está no outro, pois a cultura social justifica a materialidade utilizada no texto, desde a linguagem utilizada, até forma em que foi escrito.
    Por fim a relação existente entre literatura e sociedade é claramente de dependência deste o início, pois uma só existe em função da outra. Antonio Cândido condiciona o início da Literatura Brasileira ao surgimento da tríade Autor x Obra x Leitor, condicionando à literatura brasileira ao surgimento de uma sociedade com mobilidade, ou seja, a que houvesse circulação e não povoados isolados. Desta forma se pode concluir que não somente a existência da sociedade é fundamental para a existência da literatura como também as relações existentes nesta sociedade são fundamentais para o desenvolvimento desta literatura.

    Jefferson Ajala Gonçalves

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  35. Literatura e sociedade:
    Arte e sociedade mantêm vínculos estreitos. A literatura, por exemplo, absorve e expressa as condições do contexto em que é produzida, e está sujeita às variações ou mudanças que nele ocorrem. Fatos relacionados com o desenvolvimento sociocultural, como a difusão de periódicos, colaboraram para a afirmação da crônica como gênero literário.

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  36. A obra literária associa-se ao contexto histórico de outras obras relacionadas com o contexto social.Literatura e sociedade relaciona-se perfeitamente com a obra O Cortiço de Aluísio de Azevedo em que o narrador aponta para um fenômeno social importante nos centros urbanos brasileiros do século XIX: a presença do comerciante burguês.

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  37. OK. Vou entregar meus comentários em aula.

    Natália C. F. de Souza

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  38. Não te amo mais.
    Estarei mentindo dizendo que
    Ainda te quero como sempre quis.
    Tenho certeza que
    Nada foi em vão.
    Sinto dentro de mim que
    Você não significa nada.
    Não poderia dizer jamais que
    Alimento um grande amor.
    Sinto cada vez mais que
    Já te esqueci!
    E jamais usarei a frase
    EU TE AMO!
    Sinto, mas tenho que dizer a verdade
    É tarde demais...

    Clarice Lispector

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