segunda-feira, 10 de abril de 2017

Inscrições abertas para curso de extensão.

  Estão abertas as inscrições para o curso de extensão "Sob a égide do totalitarismo e do autoritarismo: a literatura como reflexão" que será ministrado pelo acadêmico Douglas Eraldo dos Santos sob orientação do prof. dr. João Luis Pereira Ourique e com apoio do Grupo de Pesquisa Ícaro. As inscrições vão até o dia 19 de maio com vagas limitadas e abertas à comunidade acadêmica e comunidade em geral. As aulas devem iniciar no dia 25 de maio e tem programação de 40 horas. 

    Um panorama geral sobre o que será discutido e debatido no decorrer do curso pode ser visto nesta publicação. Além disso, os interessados também podem conferir o projeto de ensino com a bibliografia e as leituras sugeridas que nortearão as discussões e as reflexões durante a atividade. Para se inscrever, clique no cartaz e preencha o formulário de inscrição.

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segunda-feira, 27 de março de 2017

Sob a égide do autoritarismo e do totalitarismo: a literatura como reflexão


Por Douglas Eralldo



É por certo que não se presta a literatura a simples conceituações, tanto é que estudiosos, ainda hoje, buscam por um conceito que a explique, nunca se chegando a um consenso final e definitivo. Aliás, é provável que este consenso nunca chegue, e, se assim o pensarmos, será bem mais provável que estejamos cometendo um erro do que qualquer outra coisa, pois a literatura está mais para apresentar reflexões e provocações do que propriamente afirmar algo. Contudo, ainda que sem um conceito que a defina por completo, não se nega de modo algum a relação da literatura com a sociedade. Para Compagnon (2009) a literatura “dota o homem moderno de uma visão que o leva para além das restrições da vida cotidiana”. No Brasil é em Antonio Candido (2006) que encontramos olhar mais elaborado acerca desta relação entre a obra literária e a sociedade, sendo que de antemão é importante observar:

a arte é social nos dois sentidos: depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo, ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais. Isto decorre da própria natureza da obra e independe do grau de consciência que possam ter a respeito os artistas e os receptores de arte.

    Candido (2004) aponta também para que “assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura”. Ele em seus trabalhos ainda fala do aspecto humanizador da literatura:

o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. (Candido 2004)

    Além disso, Candido ainda nos indica a necessidade de uma interpretação dialética da obra literária observando tanto como a obra influencia o meio, assim como o meio influencia a obra. Dizemos isto nesta breve introdução como forma de apresentar princípios e debates teóricos que nortearão o projeto do qual nos propomos a possibilitar a discussão e a reflexão a partir da literatura sobre poder, totalitarismo e autoritarismo.
    Essa discussão se dará de forma aberta à sociedade e buscará também mobilizar a comunidade acadêmica por meio da realização de um curso de extensão, nascido a partir da necessidade (e possibilidade) de realização do estágio de intervenção comunitária do curso de Letras – Português da Universidade Federal de Pelotas – UFPEL. O respectivo curso a realizar-se durante o semestre 2017/1 será ministrado pelo acadêmico Douglas Eraldo dos Santos sob orientação do Prof. Dr. João Luis Pereira Ourique contando ainda com apoio e suporte do grupo de pesquisas Ícaro. Para tanto, tendo por ponto de partida um grupo de leituras sugeridas e com o suporte teórico necessário, a intenção é justamente propor reflexões tão prementes ao atual momento histórico por qual passamos em que palavras e conceitos como fascismo, xenofobia, intolerância, racismo dentre outros retornam à pauta social.
    Fazendo o registro talvez óbvio que as reflexões não se encerram no grupo de leituras e interpretações que embasarão as discussões, ao longo do projeto buscar-se-á a partir desta leitura prévia observar e refletir como a literatura tem apresentado e discutido a temática do totalitarismo e do autoritarismo e as demais estruturas de poder. Nesse conjunto de leituras estarão presentes distopias canônicas, algumas que diante destes tempos atuais, para muitos, sombrios, voltam a criar interesse entre os leitores. Mergulharemos no universo controlado de 1984, de George Orwell (1948) com seu duplipensamento, algo que assustadoramente encontra ecos nas notícias “fakes” e nas “verdades alternativas” desta década, sem falarmos ainda da figura do “Grande Irmão” com suas representações contemporâneas. Não poderia faltar também a leitura de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932) em que o controle e a estabilidade dão-se pelo prazer absoluto numa sociedade toda de proveta. Huxley, aliás, num prefácio de 1946, sintetiza muito bem sua própria obra e o tipo de totalitarismo presente:

um estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um poder executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos, porque amariam sua servidão.

    Esta é uma afirmação deveras impactante em tempos de retrocessos de conquistas sociais. Não se deixará de fora ainda a obra que além de refletir sobre os regimes totalitários adentra a participação dos livros (nesse caso, a literatura) como resistência ao poder totalitário. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1953), os livros são queimados porque justamente estão ligados intrinsecamente ao meio social e nele exercem determinada influência de tal modo que Guy Montag, um bombeiro cuja tarefa é queimar livros, representa neste conjunto de leituras talvez a resistência mais firme aos poderes totalitários.



    Todavia a literatura brasileira também marcará forte presença neste projeto, e não nos faltam distopias e ficções nacionais que abordam com grande qualidade e relevância as relações de poder. Há em nossa literatura, inclusive, um momento específico em que o meio influenciou fortemente a arte e de nossos autores surgiram obras dum realismo fantástico pungente em tempos de exceção e restrições da liberdade, o regime militar, após o golpe de 1964. É dessa época grandes publicações como a obra de José J. Veiga, que especialmente em Sombras de Reis Barbudos (1973) torna o leitor e suas personagens prisioneiras de um regime totalitário imposto pela Companhia de Melhoramentos de Taitara. Nesse universo, em determinados momentos invadido pelo insólito, como homens voadores no céu, o que fica é a restrição da liberdade, os labirintos que aprisionam e o intenso clima de denúncias, desconfiança e violência. Tão fantástico quanto os acontecimentos nas pequenas Taitara e Manarairema de Veiga também se dá com os cadáveres insepultos de Incidente de Antares, de Érico Veríssimo (1971), que de certa forma traça um panorama de golpes e contragolpes da história brasileira ao mesmo tempo que discute o autoritarismo e o totalitarismo vigente na sociedade de Antares, que distante do mundo, não está alheia – ou isolada – aos mesmos problemas da nação. Ainda mais extrema, veremos, é a obra de Ignácio Loyola Brandão, uma ficção científica desoladora e estéril capaz de congregar as mais variadas mazelas de nossa sociedade. Em Não Verás País Nenhum, além do regime totalitário, estará também a locupletação de uma sociedade corrupta ao extremo capaz de vender toda nação e desertificar nossa paisagem.
    Estes são alguns exemplos de obras cuja interpretação norteará nossas reflexões ao longo da realização do projeto de ensino “Sob a égide do totalitarismo e autoritarismo: a literatura como reflexão”, e que neste momento gostaríamos de convidar a comunidade acadêmica e em extensão toda a comunidade a participar. Em breve, anunciaremos inscrições e divulgaremos o programa completo, que não se privará de também refletir a partir doutras referências e influências extratextuais. Sintam-se provocados. Estimulados. Este é um momento importante para estas reflexões e que reforçam cada dia mais o papel da literatura enquanto elemento componente e estruturante da sociedade.


Referências Bibliográficas
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. 4ª ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004.
__________________. Literatura e Sociedade: Ouro Sobre Azul. Rio de Janeiro, 2006.

COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Poéticas do devaneio

Gaston Bachelard (1884 – 1962) foi um autodidata que revolucionou a crítica literária construindo uma poética sob o signo dos quatro elementos: o fogo, a água, a terra e o ar. Poética esta que classifica as imaginações materiais de acordo com os elementos da natureza, desenvolvendo, dessa forma, um meio de caracterizar os diversos complexos que povoam a mente humana. 
Partindo da obra do pensador francês será apresentada uma análise de poemas de Mário Quintana e João Cabral de Melo Neto a título de possibilidade de leitura e reflexão, deixando um poema para que as postagens considerem uma possível interpretação pautada na poética do fogo.
Bachelard relaciona em A psicanálise do fogo os complexos humanos em decorrência do elemento fogo. No capítulo I, Fogo e Respeito, aborda o complexo de Prometeu, figura mitológica que roubou o fogo de Zeus e o deu aos homens. Dentro desta abordagem, esse complexo designa toda a tendência que nos impulsiona para a conquista, para o conhecimento, para a superação, desafiando nossos limites e aqueles impostos pela própria natureza, pois a invenção do fogo determina, segundo Bachelard, a passagem do estado de natureza para o estado de cultura, sendo o elemento mediador da civilização.
Fogo e Devaneio (capítulo II ) faz com que vislumbremos o fogo como algo vivo capaz de acender nossas mentes, de subjugar nossas vontades, fazendo com que a imaginação queime juntamente com as labaredas, chegando ao ponto de consumir nossa própria vida: o complexo de Empédocles. Empédocles precipitou-se na cratera do Etna, consagrando a sua forma sem confessar a sua fraqueza, pois a morte pelas chamas é a mais solitária das mortes, é total e sem traço.
No capítulo III, Bachelard apresenta a visão sexualizada do fogo, onde o atrito que gera calor está relacionado ao ato sexual através da necessidade do calor compartilhado – o complexo de Novalis. No capítulo seguinte apresenta o fogo sexualizado (elemento masculino juntamente com o ar), um imenso devaneio sexual, onde o fogo é também elemento formador que permitiu ao homem o acesso à cultura e à civilização. Já o complexo de Hoffmann (capítulo VI ) traz a comunhão da vida e do fogo, onde o álcool é um fator de linguagem, enriquece o vocabulário e liberta a sintaxe.
Por fim, no capítulo VII, o fogo é, ao mesmo tempo, símbolo da pureza e da impureza. Enquanto símbolo do pecado, liga-se ao fogo sexualizado, podendo também tornar-se um símbolo de pureza porque é um elemento purificador, bem como a luz que brilha sem queimar: o fogo idealizado.

 
POEMA ENTREDORMIDO AO PÉ DA LAREIRA
Mário Quintana

  1. O anjo depenado tremia de frio
  2. Mas veio o Conde Drácula e emprestou-lhe a sua capa negra
  3. Na litografia da parede
  4. Helena a bela grega
  5. Mantém sua pose olímpica... Desloca-se um tição:
  6. Uma chama
  7. Começa a lamber como um gato minha perna de pau.

O poeta revela, através do seu devaneio, o complexo de Empédocles presente no poema, pois as chamas da lareira o levam ao mundo do impossível e do imaginário, fazendo com que o bem e o mal sejam representados pelo anjo e pelo Conde Drácula (verso 2), no qual ele se vê como um anjo imperfeito, “depenado” (verso 1), significando, ao lado do Drácula, a libertação da fantasia.
O complexo de Novalis também pode ser observado no poema através da sensualidade presente nas chamas. Quando uma delas age como um gato que vai, devagar e manhosamente, tomando conta, o seduz e convida a fazer parte do fogo (verso 7). Todo esse “diálogo” com as chamas também revela o complexo de Hoffmann pela combustão que ocorre na imaginação do autor.
O próprio poema traz em si o fascínio pelo fogo e a influência dele no seu devaneio, pois quando ele – o eu lírico – desvia a sua atenção das chamas, consegue vislumbrar a realidade a sua volta, mostrando que na ausência do fogo as imagens mantém sua frieza e passividade (versos 3,4 e 5). Assim sendo, o entredormido reforça a ideia do poema, que conduz ao devaneio mas que em dado momento retoma o mundo real quando se afasta do feitiço das chamas.

 
DE BERNARDA A FERNANDA DE UTRERA
João Cabral de Melo Neto

  1. Bernarda de Utrera arranca-se o cante
  2. quando a brasa chama a si as chamas:
  3. quando ainda brasa, no entanto quando,
  4. chamado a si o excesso, se desinflama.
  5. Ela usa a brasa íntima do quando breve
  6. em que, brasa apenas e em brasa viva,
  7. arde numa dosagem exata de si mesma:
  8. brasa estritamente brasa, inexcessiva.

9. Fernanda de Utrera arranca-se o cante
10. quando a brasa extenuada já definha:
11. quando a brasa resfriada já se recobre
12. com o cobertor ou as plumas da cinza.
13. Ela usa a brasa íntima no quando longo
14. em que rola calor abaixo até a pedra;
15. no da brasa em pedra, no da brasa do frio:
16. para daí reacendê-la, e contra a queda.

O poema de João Cabral de Melo Neto retrata as atitudes de duas mulheres diferentes perante a relação sexual, seus medos, pudores, desejos e satisfações, bem como a maneira como elas expressam esses sentimentos. Para tanto, o fogo serve de instrumento para esta representação, ora como brasa ardente, chama enfim, ora como brasa extenuada sob o cobertor das cinzas. O fogo como “combustão” espontânea dos desejos e pudores caracteriza o complexo de Hoffmann: sempre como brasa, ou mais viva ou mais fria, mas sempre brasa (versos 1, 2, 9 e 10). A representação das mulheres está totalmente associada ao fogo, à chama.
Apesar do complexo de Hoffmann estar presente em todo o poema, é o complexo de Novalis que concede o verdadeiro sentido ao poema. Através da retratação do ato sexual por meio da comparação com a brasa, o fogo aparece como elemento representativo do desejo sexual.
O texto usa um código cheio de metáforas associadas ao fogo para representar o ato sexual. As imagens de penetração, de ascensão térmica e de calor representadas pela brasa íntima (versos 6, 7, 8, 14, 15 e 16) fazem com que as mulheres revelem seus sentimentos com relação ao sexo. Bernarda, ardente e ousada em busca do prazer breve (versos 2, 3 e 4), enquanto que Fernanda mostra-se com mais pudores, exigindo proteção e amparo (versos 10, 11 e 12).

Segue o poema para análise e interpretação:

 
INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA
Mário Quintana

  1. A vida é um incêndio; nela
  2. dançamos salamandras mágicas.
  3. Que importa restarem cinzas
  4. se a chama foi bela e alta ?
  5. Em meio aos toros que desabam,
  6. cantemos a canção das chamas !
  7. Cantemos a canção da vida,
  8. na própria luz consumida...

O texto histórico como artefato literário

Em O texto histórico como artefato literário, capítulo 3 de Trópicos do Discurso, Hayden White apresenta uma discussão sobre o que a meta-história tenta fazer: manter-se atrás dos pressupostos que conferem sustentação a um dado tipo de investigação e formular as perguntas que a sua prática pode requerer. Destaca como sendo “um problema que nem os filósofos nem os historiadores encararam  com muita seriedade e ao qual os teóricos da literatura só têm concedido uma atenção momentânea” (p.98). Isso diz respeito ao status da narrativa histórica, um artefato não-sujeito a controles experimentais ou observacionais. Enfatiza também a relutância em considerar as narrativas históricas como aquilo que elas manifestamente são: “ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais em comum com seus equivalentes na literatura do que com seus correspondentes nas ciências” (p. 98).

Ora, é óbvio que esta fusão da consciência mítica e da história ofenderá alguns historiadores e perturbará aqueles teóricos literários cuja concepção de literatura pressupõe uma oposição radical da história à ficção ou do fato à fantasia. (...) O que Frye diz é bastante verdadeiro enquanto afirmação do ideal que inspirou a escrita histórica desde a época dos gregos, mas esse ideal pressupõe uma
oposição entre mito e história que é tão problemática quanto venerável. Ela serve muito bem aos propósitos de Frye, visto que lhe permite localizar o especificamente “fictício” no espaço entre os dois conceitos de “mítico” e “histórico”.(...) “Toda a obra de literatura”, insiste Frye, “tem ao mesmo tempo um aspecto ficcional e um aspecto temático”, mas quando nos movemos da “projeção ficcional” para a articulação aberta do tema, a escrita tende a assumir o aspecto de “comunicação direta, ou escrita discursiva imediata, e deixa de ser literatura”.(p. 98-99).

WHITE, Hayden.
O texto histórico como artefato literário.
In: _____.Trópicos do discurso.
Tradução: Alípio Corrêa de Franca Neto.
São Paulo: Edusp, 1994.

O jogo do texto

Segundo Wolfgang Iser, "o jogo encenado do texto não se desdobra, portanto, como um espetáculo que o leitor meramente observa, mas é tanto um evento em processo como um acontecimento para o leitor; provocando seu envolvimento direto nos procedimentos e na encenação. Pois o jogo do texto pode ser cumprido individualmente por cada leitor, que, ao realizá-lo de seu modo, produz um 'suplemento' individual, que considera ser o significado do texto. O significado é um 'suplemento' porque prende o processo ininterrupto de transformação e é adicional ao texto, sem jamais ser autenticado por ele." 

In: LIMA, Luiz Costa (org.). A literatura e o leitor. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002, p. 116.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Discussões

Seguem links de alguns exemplos citados nos encontros referentes aos operadores de leitura:

http://culturafm.cmais.com.br/radiometropolis/lavra/victor-hugo-a-uma-mulher
https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/48859
https://www.youtube.com/watch?v=hkmz9Ip_zO8

Também disponibilizo o conto Diálogo, de Caio Fernando Abreu, e os poemas de Raul Bopp (MÃE-PRETA) e de Paulo Leminsk (enchantagem):

Diálogo

A: Você é meu companheiro.
B:Hein?
A:Você é meu companheiro, eu disse.
B:O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranoico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Eu estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: É.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: É
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor, não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não vê?
A: Eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não. Não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)

 
MÃE-PRETA

- Mãe-preta conte uma história.
- Então feche os olhos filhinho:

Longe, muito longe
era uma vez o rio Congo...

Por toda a parte o mato grande.
Muito sol batia no chão.

De noite
chegavam os elefantes.
Então o barulho do mato crescia.

Quando o rio ficava brabo
inchava.

Brigava com as árvores.
Carregava com tudo, águas abaixo,
até chegar na boca do mar.

Depois...

Olhos da preta pararam.
Acordaram-se as vozes do sangue,
glu-glus de água salgada
naquele dia do nunca-mais.

Era uma praia vazia
com riscos brancos de areia
e batelões carregando escravos.

Começou então
uma noite muito comprida.
Era um mar que não acabava mais.

... depois...

- Ué mãezinha,
por que não conta o resto da história?

[Raul Bopp (1898-1984) - In: Urucungo, 1932]

enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
                           parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau da vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

[Paulo Leminski (1944-1989) - In: Toda poesia, 2013]


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Textos e Livros Teóricos

Clique aqui  para acessar a pasta com os textos teóricos que serão utilizados em Crítica Literária. Atente-se ao olhar o plano de ensino da disciplina onde contém os nomes dos textos teóricos e o livro do quais foram retirados: no link disponibilizado estão incluídos alguns livros nos quais os textos estão inseridos.

Também estão disponíveis alguns textos e livros auxiliares aqui.

Quaisquer dúvidas, mande um e-mail para literaturamonitoria@gmail.com.