Gaston Bachelard (1884 – 1962) foi um autodidata que
revolucionou a crítica literária construindo uma poética sob o
signo dos quatro elementos: o fogo, a água, a terra e o ar. Poética
esta que classifica as imaginações materiais de acordo com os
elementos da natureza, desenvolvendo, dessa forma, um meio de
caracterizar os diversos complexos
que povoam a mente humana.
Partindo da obra do pensador francês será apresentada uma análise de poemas de Mário Quintana e João Cabral de Melo Neto a título de possibilidade de leitura e reflexão, deixando um poema para que as postagens considerem uma possível interpretação pautada na poética do fogo.
Bachelard relaciona em A psicanálise do fogo os complexos humanos em decorrência do elemento fogo. No capítulo
I, Fogo
e Respeito,
aborda o complexo de Prometeu, figura mitológica que roubou o fogo
de Zeus e o deu aos homens. Dentro desta abordagem, esse complexo
designa toda a tendência que nos impulsiona para a conquista, para o
conhecimento, para a superação, desafiando nossos limites e aqueles
impostos pela própria natureza, pois a invenção do fogo determina,
segundo Bachelard, a passagem do estado de natureza para o estado de
cultura, sendo o elemento mediador da civilização.
Fogo
e Devaneio
(capítulo II ) faz com que vislumbremos o fogo como algo vivo capaz
de acender nossas mentes, de subjugar nossas vontades, fazendo com
que a imaginação queime juntamente com as labaredas, chegando ao
ponto de consumir nossa própria vida: o complexo de Empédocles.
Empédocles precipitou-se na cratera do Etna, consagrando a sua forma
sem confessar a sua fraqueza, pois a morte pelas chamas é a mais
solitária das mortes, é total e sem traço.
No
capítulo III, Bachelard apresenta a visão sexualizada do fogo, onde
o atrito que gera calor está relacionado ao ato sexual através da
necessidade do calor compartilhado – o complexo de Novalis. No
capítulo seguinte apresenta o fogo sexualizado (elemento masculino
juntamente com o ar), um imenso devaneio sexual, onde o fogo é
também elemento formador que permitiu ao homem o acesso à cultura e
à civilização. Já o complexo de Hoffmann (capítulo VI ) traz a
comunhão da vida e do fogo, onde o álcool é um fator de linguagem,
enriquece o vocabulário e liberta a sintaxe.
Por
fim, no capítulo VII, o fogo é, ao mesmo tempo, símbolo da pureza
e da impureza. Enquanto símbolo do pecado, liga-se ao fogo
sexualizado, podendo também tornar-se um símbolo de pureza porque
é um elemento purificador, bem como a luz que brilha sem queimar: o
fogo idealizado.
POEMA
ENTREDORMIDO AO PÉ DA LAREIRA
Mário
Quintana
- O anjo depenado tremia de frio
- Mas veio o Conde Drácula e emprestou-lhe a sua capa negra
- Na litografia da parede
- Helena a bela grega
- Mantém sua pose olímpica... Desloca-se um tição:
- Uma chama
- Começa a lamber como um gato minha perna de pau.
O
poeta revela, através do seu devaneio, o complexo de Empédocles
presente no poema, pois as chamas da lareira o levam ao mundo do
impossível e do imaginário, fazendo com que o bem e o mal sejam
representados pelo anjo e pelo Conde Drácula (verso 2), no qual ele
se vê como um anjo imperfeito, “depenado” (verso 1),
significando, ao lado do Drácula, a libertação da fantasia.
O
complexo de Novalis também pode ser observado no poema através da
sensualidade presente nas chamas. Quando uma delas age como um gato
que vai, devagar e manhosamente, tomando conta, o seduz e convida a
fazer parte do fogo (verso 7). Todo esse “diálogo” com as
chamas também revela o complexo de Hoffmann pela combustão que
ocorre na imaginação do autor.
O
próprio poema traz em si o fascínio pelo fogo e a influência dele
no seu devaneio, pois quando ele – o eu lírico – desvia a sua
atenção das chamas, consegue vislumbrar a realidade a sua volta,
mostrando que na ausência do fogo as imagens mantém sua frieza e
passividade (versos 3,4 e 5). Assim sendo, o entredormido
reforça a ideia do poema, que conduz ao devaneio mas que em dado
momento retoma o mundo real quando se afasta do feitiço
das chamas.
DE BERNARDA A FERNANDA DE UTRERA
João Cabral de Melo Neto
- Bernarda de Utrera arranca-se o cante
- quando a brasa chama a si as chamas:
- quando ainda brasa, no entanto quando,
- chamado a si o excesso, se desinflama.
- Ela usa a brasa íntima do quando breve
- em que, brasa apenas e em brasa viva,
- arde numa dosagem exata de si mesma:
- brasa estritamente brasa, inexcessiva.
9.
Fernanda de Utrera arranca-se o cante
10.
quando a brasa extenuada já definha:
11.
quando a brasa resfriada já se recobre
12.
com o cobertor ou as plumas da cinza.
13.
Ela usa a brasa íntima no quando longo
14.
em que rola calor abaixo até a pedra;
15.
no da brasa em pedra, no da brasa do frio:
16.
para daí reacendê-la, e contra a queda.
O poema de João Cabral de Melo Neto
retrata as atitudes de duas mulheres diferentes perante a relação
sexual, seus medos, pudores, desejos e satisfações, bem como a
maneira como elas expressam esses sentimentos. Para tanto, o fogo
serve de instrumento para esta representação, ora como brasa
ardente, chama enfim, ora como brasa extenuada sob o cobertor das
cinzas. O fogo como “combustão” espontânea dos desejos e
pudores caracteriza o complexo de Hoffmann: sempre como brasa, ou
mais viva ou mais fria, mas sempre brasa (versos 1, 2, 9 e 10). A
representação das mulheres está totalmente associada ao fogo, à
chama.
Apesar do complexo de Hoffmann estar
presente em todo o poema, é o complexo de Novalis que concede o
verdadeiro sentido ao poema. Através da retratação do ato sexual
por meio da comparação com a brasa, o fogo aparece como elemento
representativo do desejo sexual.
O
texto usa um código cheio de metáforas associadas ao fogo para
representar o ato sexual. As imagens de penetração, de ascensão
térmica e de calor representadas pela brasa
íntima (versos 6, 7, 8, 14, 15 e 16) fazem
com que as mulheres revelem seus sentimentos com relação ao sexo.
Bernarda, ardente e ousada em busca do prazer breve (versos 2, 3 e
4), enquanto que Fernanda mostra-se com mais pudores, exigindo
proteção e amparo (versos 10, 11 e 12).
Segue o poema para análise e interpretação:
INSCRIÇÃO
PARA UMA LAREIRA
Mário
Quintana
- A vida é um incêndio; nela
- dançamos salamandras mágicas.
- Que importa restarem cinzas
- se a chama foi bela e alta ?
- Em meio aos toros que desabam,
- cantemos a canção das chamas !
- Cantemos a canção da vida,
- na própria luz consumida...
Na abertura do poema de Mário Quintana apresentam-se noções do complexo de Empédocles, representando a vida como incêndio e projetando as pulsões que nos impelem a ela, ainda que signifique leva-la às ultimas consequências. De forma a legitimar a morte pelo fogo, tem-se a ideia do belo (verso 4), cujo deleite estético e o entregar-se às vontades, faz-se presente em contraste com a consequência, a pulsão de morte. As salamandras mágicas (verso 2) representando labaredas que, à medida que consomem a vida, aprazem o eu lírico, até que dele restem apenas cinzas (verso 3), confirmam a presença da pulsão de vida, da vontade de potência.
ResponderExcluirDe forma imperativa, por fim, o eu lírico convida-nos a perfilhar as chamas, cantar a canção da vida (verso 5) que consumir-se-á pelo fogo e purificar-se-á pela luz, centrando, assim, o eixo temático em um prazimento, um diletantismo piromaníaco de consumação da própria existência.